Mundo
de Deborah
TECENDO
LEITURAS
ABRIL/2005
Recordo
PROJETO
DESENVOLVIDO POR:
Profª
Deborah Adriana Tonini Martini Cesar
Bacharel em Língua Portuguesa e Italiana- USP
Licenciada em Língua Portuguesa –USP
E.E.
LEONICE DE AQUINO OLIVEIRA
Embu Guaçu - SP
E.E.Leonice de Aquino Oliveira
PROJETO RECORDO
Profª Deborah Adriana Tonini Martini Cesar
INTRODUÇÃO
Esse
projeto teve por elemento desencadeador o poema RECORDO AINDA do poeta
Mário Quintana, que trata o tema da velhice de uma forma bem
interessante, aproximando-a da idade jovem no que diz respeito aos seus anseios.
A partir desse tema, montei uma antologia de poetas brasileiros que tratam o
mesmo tema, sob óticas bastante semelhantes. A questão do tempo também é
tratada.
Costuma-se
dizer que, atualmente um indivíduo de quarenta anos já é velho, com
dificuldades até para conseguir encaixar-se no mercado de trabalho.Mas
segundo essa breve pesquisa feita, essa questão é o reflexo de uma convenção
cultural já bastante antiga. O poema QUARENTA ANOS de Mário de Andrade marca
essa idade como o início da velhice.
Além
de ser um incentivo à leitura, o projeto visa promover uma reflexão
sobre o que é ser um velho na sociedade brasileira. Quem pode ser considerado
velho na realidade? O que um indivíduo avançado em anos (um macróbio, como
dizem Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade) pode desempenhar na
sociedade em que estão inseridos. Um dos textos da antologia, o único em
prosa, A ARTE DE SER VELHO de Vinícius de Moraes retrata de forma
interessante as diferentes visões em relação ao idoso nacional e de
outros países.
Além
da questão filosófica, o trabalho abrange de forma bastante diluída
alguns tópicos da teoria
literária, a saber: forma, rima, figuras, estrofe, métrica e mais.
MATERIAL
UTILIZADO
Como neste ano deu-se prioridade à reposição dos livros didáticos,
os módulos de livros paradidáticos não foram solicitados, portanto
provavelmente não o receberemos. Assim sendo, preparei uma antologia
utilizando transparências para retroprojetor que permitem expor o material
para diversas turmas, proporcionando maior praticidade.
TEXTOS
E POEMAS QUE COMPÕEM A ANTOLOGIA
Recordo Ainda de Mário Quintana
O Tempo é Um Fio de Henriqueta Lisboa
O Circo o Menino a Vida
de Mário Quintana
Retrato
de Cecília Meireles
Envelhecer
de Mario Quintana
Versos de Natal de Manuel Bandeira
O Tempo de
Mario Quintana
Quarenta anos de Mario de Andrade
O Relógio
de Vinícius de Moraes
A Arte de ser Velho
de Vinícius de Moraes
Carta
de Carlos Drummond de Andrade
PÚBLICO
ALVO
5ª
e 6ª série do Ensino Fundamental
DESENVOLVIMENTO
PASSO A PASSO
Total
de aulas:10
1ª
etapa: Duração 2 aulas
Poemas:
Recordo
Ainda de Mário Quintana
Versos
de Natal de Manuel Bandeira
O
Circo O Menino A vida de Mario
Quintana
A) Iniciar a aula perguntando aos alunos:
1)
O que é para eles uma pessoa velha.
2)
Se alguma vez já se imaginaram velhos.
3)
Se alguém tem medo da velhice e por quê.
4)
Se alguém gostaria de descrever oralmente uma pessoa idosa que conheça
em sua aparência e atitudes.
5)
Se alguém tem amizade com uma pessoa idosa e sobre o que conversam.
B)A partir
das idéias lançadas no diálogo, pode-se se lançar um mini-debate com alguém
anotando os assuntos abordados. Quando o tema parecer esgotado, os alunos são
surpreendidos com a declamação do poema Recordo Ainda de Mário
Quintana utilizando-se um fantoche de espuma com a aparência de um velhinho.
C) O poema
é colocado no retroprojetor para que todos os alunos possam ler, esclarecer
alguma dúvida quanto ao vocabulário, de preferência através da inferência
de significado.
D)
Perguntar aos alunos se já haviam pensado num velho como uma pessoa que, na
verdade, pode ter seu espírito bastante jovem.
E)
Identificar a forma do soneto
F)
Distinguir o padrão de rima.
G) Um
aluno declama o poema Versos de Natal de Manuel Bandeira também
utilizando o velhinho fantoche.
H) Expõe-se
a transparência com o poema e pergunta-se aos alunos:
1)
Se há semelhanças entre os poemas, quais?
2)
Há semelhanças quanto à forma?
3)
O poema apresenta rimas?
4)
Vocês uma pessoa velha pode pensar como a criança ou como o jovem?
Por quê?
5)
Apresenta-se o poema O CIRCO O MENINO A VIDA em forma de jogral e através
da transparência, pedir aos alunos que verifiquem uma possível semelhança
com os outros dois poemas.Perguntar-lhes o que há de comum entre :Circo,
Menino e Vida. (O Circo passa pela cidade rapidamente, a infância é um período
relativamente curto em relação à totalidade da vida humana e a vida é também
considerada curta e fugaz) Discutir esses conceitos. Destacar a diferença das
formas e explicar o que são versos livres e brancos.
I)
Havendo tempo disponível, os alunos podem anotar em seus cadernos os poemas
trabalhados ou um poema de sua preferência para uma futura exposição.
2ª
etapa: Duração 2 aulas
poemas:
Carta
Carlos Drummond de Andrade
Envelhecer
Mário Quintana
Canção
Cecília Meireles
1-
Pedir que um aluno leia o poema Carta
Carlos Drummond de Andrade.
2-
Perguntar aos alunos para quem acham que essa carta é endereçada?
3-
O eu lírico contrasta dois momentos diversos de sua vida. Quais são?
Ele também contrasta dois tipos de toques diferentes que sua pele recebeu.
Quais são? O que pode ser o relevo mencionado na primeira estrofe, no
terceiro verso?Induzir os alunos, se necessário, à percepção de que as
rugas seriam marcas de uma vida permeada por sofrimentos.
4-
A qual palavra da primeira estrofe está ligado o segundo verso da
segunda estrofe? “(...) são golpes, são espinhos; são lembranças(...)”.
Pedir aos alunos que a escrevam seqüencialmente, a saber Estes sinais são
golpes, são espinhos; são lembranças (da vida).
5-
Explicar aos alunos que o soneto é uma forma poética bastante antiga.
Grande parte da antologia é composta por sonetos. O que essa freqüência
pode representar. (Utilização de uma forma antiga para representar a
velhice)
6-
Envelhecer pode ser doloroso? Quando? Ler o poema Envelhecer de
Mario Quintana.(pode ser utilizado o fantoche de espuma do velhinho)
7-
Perguntar aos alunos o que pode significar fazer chá para os
fantasmas. Leva-los ao entendimento de que a única companhia do velho era a
dos fantasmas. Era um velho solitário.
8-
Por que o poema tem um só quarteto? As poucas palavras podem
representar as parcas conversas de um solitário?
9-
E os caminhos que iam e agora só vêm? O que isso pode representar?
Tentar levar-lhes à idéia de que uma pessoa jovem pode se locomover
facilmente indo em busca do suprimento de suas necessidades e até de
companhia. Um velho, já com problemas para andar, fica na dependência de que
alguém o visite. Os caminhos só servem para os que vêm.Os poucos livros
podem ser representativos de uma memória já prejudicada (poucos livros,
poucos registros).
10-
Perguntar aos alunos se costumam fazer visitas às pessoas mais velhas
de sua família. Dão a eles a atenção que precisam? É possível se
aprender com as pessoas velhas?Que conversas podem ser agradáveis? Que
assuntos podem ser de interesse comum às pessoas de diferentes idades?
11-
Já viram reportagens sobre asilos? O que lhes pareceu? Já visitaram
uma instituição para idosos? (o professor pode organizar uma visita a um
asilo, na qual os adolescentes poderão contribuir com sua alegria e até
mesmo com agasalhos e alimentos)
PARA
CASA: Os alunos deverão entrevistar uma pessoa de 40 anos, perguntando-lhe
sobre seu modo de ver a vida, projetos para o futuro, medos, se essa pessoa se
sente velha e como ela encara as pessoas bastante idosas, o que essas pessoas
podem e devem fazer e outras perguntas feitas a critério dos alunos.Devem
trazer fotos de pessoas de 40 anos que achem bonitas, de preferência
artistas.
3ª
etapa: Duração 2 aulas
Poema:
Quarenta Anos
– de Mário de Andrade
Prosa:
A Arte de ser Velho-
Carlos Drummond de Andrade
1-
Um aluno entra na sala e declama a poesia Quarenta Anos de Mário de
Andrade, sem , porém expor-lhe o título.
2-
Em seguida, apresentar a transparência
com o poema omitindo o título, lendo o poema,
3-
Perguntar aos alunos quantos anos eles acham que tem o eu-lírico do
poema.
4-
Depois de haverem feito suas tentativas, mostrar-lhes o título do
poema e perguntar-lhes se as idéias das pessoas de quarenta anos
entrevistadas se assemelha à visão
apresentada no poema.
5-
Perguntar-lhes o motivo provável do eu-lírico pensar como fosse um
velho. Abordar a questão da longevidade no início do século XX e agora.
6-
Mostrar fotos de artistas que têm 40 anos ou mais: Xuxa, Vera Fischer,
Tom Cruise e outros e perguntar
aos alunos se eles acham que essas pessoas pensam da mesma forma que a pessoa
do poema.
7-
Estudar a forma e o padrão
de rimas
8-
Introduzir noções de métrica
9-
Em seguida, fazer uma leitura conjunta do texto A Arte de Ser Velho de
Vinícius de Moraes usando a transparência no retroprojetor e perguntar-lhes
se essa visão de velho recatado condiz com as expectativas expostas pelos
entrevistados em relação à velhice.
10-
O texto é preconceituoso?
11-
Por que acham que a visão em relação ao idoso no exterior pode ser
diferente da nossa e o que pode acarretar aos nossos velhos a nossa forma de
pensar em relação a eles. Discutir o conceito de inutilidade, da falta de
emprego para as pessoas mais velhas e outros problemas que cercam nossos
velhos. Peça para alguém contar uma injustiça feita a uma pessoa idosa que
tenha presenciado. Exemplos: As lotações não param para os velhos que
apresentam a carteira para isenção de pagamento no transporte.
12-
Havendo tempo disponível, os alunos podem anotar o poema Quarenta
Anos.
13-
PARA CASA: Trazer pedaços de rendas, tecidos, fotos desses materiais.
4ª
etapa: Duração 2 aulas
O tempo é um fio- Henriqueta
Lisboa
O Tempo
– Mário Quintana
1-
Ler utilizando as transparências
os dois poemas e observar que no início de ambos há uma metáfora.
Introduzir ou relembrar o conceito.
2-
Colocar a transparência do poema O Tempo de Mário Quintana e
pedir aos alunos que identifiquem ao que o tempo é comparado.
3-
Aproveitar a oportunidade para diferenciar a METÁFORA da COMPARAÇÃO.
4-
Introduzir ou relembrar a PROSOPOPÉIA ou PERSONIFICAÇÃO.
5-
O tempo existe de verdade ou só é uma convenção humana? Tempo e
horas são a mesma coisa? Como podemos nos tornar escravos do tempo?È
prejudicial manter horários muito rígidos? Por quê ?
6-
Por que somente os poetas, os amantes e os bêbados podem, por
instantes, escapar do Velho ranzinza?E as crianças que brincam, se importam
com o tempo? Por quê?
7-
Colocar a transparência
do poema O tempo é um fio de Henriqueta Lisboa e pedir aos alunos que
identifiquem ao que o tempo é comparado.
8-
Perguntar se no primeiro verso há uma metáfora ou uma comparação.
9-
Contrastar a forma grotesca do Velho ranzinza a quem o tempo é
comparado com a suavidade e delicadeza do fio.É possível imaginar no segundo
poema uma pessoa tecendo? Talvez uma velha fazendo tricô?
10-
Reler a primeira e a quinta estrofe e perguntar aos alunos de que forma
o fio do tempo pode escapar? Como e quando perdemos tempo?Descansar é perder
tempo?
11-
Pedir aos alunos que encontrem no poema uma comparação.
12-
Introduzir o conceito de
GRADAÇÃO que há no poema: fio, rendas, franças, malhas e redes. Cada vez
mais o fio vai tomando corpo.
13-
Em que momento o “tecido do tempo” é útil? E quando se torna inútil?
O que pode representar essa inutilização do tecido (farrapo jogado à toa)?
14-
O que pode querer dizer o
verso “Mas ainda é tempo!”?
15-
A delicadeza do poema se rompe justamente nessa frase exclamativa
“Mas ainda é tempo!”. Por quê?
16-
A última estrofe imprime
uma vasta e farta movimentação. O que isso pode representar? È possível
recuperar o tempo perdido? De que forma?
17-
Elaborar cartazes nos quais os poemas são copiados, enfeitados e
expostos.
14-
PARA CASA: Trazer de casa recortes de fotos de pessoas jovens e velhas
e um espelho pequeno.
5ª
etapa: Duração 2 aulas
Retrato-
Cecília Meireles
O Relógio- Vinícius
de Moraes
1-
Iniciar a aula pedindo aos alunos que observem seus rostos atentamente nos
espelhos que trouxeram de casa. Diga-lhes que observem o formato do rosto
(redondo, oval,quadrado, fino); observem os olhos :São grandes? Pequenos?
Amendoados? Escuros? Claros? O que eles expressam? Observem agora os lábios:
São finos? Grossos? O que expressam? Pedir aos alunos que desenhem seu rosto
em papel sulfite usando apenas metade da folha.
2-
Ler para os alunos o poema O Relógio de Vinícius de Moraes, marcando
bem o ritmo de relógio que o poema oferece. Em seguida perguntar aos alunos o
que esse poema tem a ver com um relógio. Aproveitar a oportunidade para
mencionar o recurso da onomatopéia. Perguntar aos alunos qual foi a impressão
que tiveram na leitura do poema em relação ao passar do tempo. O tempo passa
rápido? Devagar? Ele pára em algum momento de transcorrer? O tempo voa?
Quando o tempo parece transcorrer mais depressa e quando o tempo parece
demorar passar?
3-
Após essa reflexão sobre o tempo, uma aluna deverá entrar vestida e
maquiada como uma pessoa muito velha, olhando-se num espelho e declamando o
poema Retrato de Cecília Meireles de uma forma bem teatral.
4-
Questionar os alunos o porquê da mulher ter se surpreendido ao ver sua imagem
no espelho? Será que ela não se olhava no espelho há muito tempo? Ou
será que foi um momento de reflexão em que ela comparou sua imagem atual àquela
de jovem que tinha em lembrança? Vocês têm medo de envelhecer? Por quê?
Como vocês acham que ficaria seu rosto quando se tornarem muito
velhos? Pedir para que desenhem o rosto imaginado ao lado do rosto atual. É
possível ser feliz mesmo sendo bem velho?Por quê? Você faria uma plástica
?O que uma pessoa idosa precisa ter ou fazer para ser feliz? Você tem alguém
na família que seja velho? Você o ajuda a ser feliz? De que maneira?
5-
Enquanto alguns alunos fazem um cartaz com o poema Retrato de Cecília
Meireles utilizando as figuras de pessoas jovens e velhas que trouxeram. Outro
grupo monta um painel colando os desenhos que fizeram de seus rostos, dando a
esse painel um título criativo. Um terceiro grupo faz uma paródia do poema Retrato
de Cecília Meireles mostrando uma idosa menos melancólica, que possa ter
feito uso dos recursos que a plástica oferece e que tenha uma vida ativa e
que aprecie viver a fase que esta vivendo.
6-
Expor o cartaz ,o painel e o poema produzidos.
Esse
projeto para 10 aulas pode ser desenvolvido seqüencialmente, utilizando aulas
dobradas ou mesmo em aulas separadas. É importante retomar os poemas em
comparação em cada etapa para que haja uma ligação temática. O projeto
pode ser utilizado em parte. É importante que no final seja possível ter
desenvolvido, além dos conceitos teóricos de análise literária, a concepção
de que a velhice pode ter suas desvantagens, mas que uma mudança de
comportamento social, familiar e pessoal, podem fazer da velhice uma fase da
vida prazerosa, cercada pelo amor dos familiares e mais plena pelo exercício
de tarefas de utilidade, não só para o indivíduo, mas desempenhando sua
cidadania. É importante também ressaltar que os poetas que compuseram esses
poemas, em sua maioria, os escreveram em sua velhice e tinham, portanto,
atividade mental intensa, produzindo bens culturais de grande valor para a
sociedade.
Segue
antologia.
Profª
Deborah Adrian Tonini Martini Cesar
Recordo
ainda... E nada mais me importa...
Aqueles
dias de uma luz tão mansa
Que
me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum
brinquedo novo à minha porta...
Mas
veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas da noite morta!
eu pendurei na galharia torta
Todos
os meus brinquedos de criança...
Estrada
após segui... Mas, ai,
Embora
idade senso eu aparente,
Não
vos iluda o velho que aqui vai:
Eu
quero os meus brinquedos novamente!
Sou
um pobre menino... Acreditai...
Que
envelheceu, um dia, de repente! ...
QUINTANA,
M. In: Nariz de Vidro. São Paulo:Moderna,1984 p.35
Mario
Quintana
A moça do arame
Equilibrando a sombrinha
Era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando e despindo-se.
Lentamente.
Só para judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
Até parecerem dois pires:
Meu tio dizia:
“bobo!”
Não sabes
Que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo?
(Naqueles voluptuosos tempos não havia nem maiôs nem biquínis...)
Sim! Mas toda a deliciante angústia
dos meus olhos virgens
Segredava-me
Sempre:
“Quem sabe?”
Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada
Desta nem da outra vida.
No entanto
O menino
(que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças,
o menino
às vezes segreda-me baixinho
“Titio, que sabe?...”
Ah, meu Deus, essas crianças!
QUINTANA,
M. In: Nariz de Vidro. São Paulo:Moderna,1984 p.7
Eu
não tinha este rosto de hoje,
Assim
calmo, assim triste, assim magro,
Nem
estes olhos tão vazios,
Nem
o lábio tão amargo.
Eu
não tinha estas mãos sem força,
Tão
paradas e frias e mortas;
Eu
não tinha este coração
Que
nem se mostra.
Eu
não dei por esta mudança,
Tão
simples, tão certa, tão fácil:
_Em
que espelho ficou perdida minha face?
MEIRELES,
C. Viagem In: Antologia Poética São Paulo:N. Fronteira;2004 PNLD p.18
Eras
um rosto
na
noite larga
de
altas insônias
iluminada.
Serás
um dia
vago
retrato
de
quem se diga:
“o
antepassado”.
Eras
um poema
cujas
palavras
cresciam
dentre
mistério
e lágrimas.
Serás
silêncio,
tempo
sem rastro,
de
esquecimentos
atravessado.
Disso
é que sofre
a
amargurada
flor
da memória
que
ao vento fala.
MEIRELES, C. Retrato Natural In: Antologia Poética São Paulo:N. Fronteira;2004 PNLD p.113
Vinícius
de Moraes
É curioso como, com o avançar dos anos e o
aproximar da morte, vão os homens fechando portas atrás de si, numa espécie
de pudor que o vejam enfrentar a velhice que se aproxima. Pelo menos entre nós,
latinos da América e, sobretudo do Brasil. E talvez seja melhor assim; pois
se esse sentimento nos subtrai em vida, no sentido de seu aproveitamento no
tempo, evita-nos incorrer em desfrutes de que não está isenta, por exemplo,
a ancianidade entre alguns povos europeus e de alhures.
Não estou querendo dizer com isso que todos os
nossos velhinhos sejam nenhuma flor que se cheire. Temo-los tão pilantras
como não importa onde, e com a agravante de praticarem seus malfeitos com
menos ingenuidade. Mas, como coletividade, não há dúvida de que os
velhinhos brasileiros têm mais compostura que a maioria da velhorra
internacional (tirante,é claro, a China), embora entreguem mais depressa a
rapadura.
Talvez nem seja compostura; talvez seja esse pudor eu
falávamos acima, de se mostrarem em sua decadência, misturado ao muito freqüente
sentimento de não terem aproveitado os verdes anos como deveriam. Seja como
for, aqui no Brasil os velhos se retraem daqueles seus semelhantes que como se
poderia dizer, têm a faca e o queijo nas mãos. Em lugares públicos não têm
sido poucas as vezes em que já surpreendi olhares de velhos para moços que
se poderiam traduzir mais ou menos assim: “Desgraçado! Aproveita enquanto
é tempo, porque não demora muito e vais ficar assim como eu, um velho, e
nenhuma dessas boas olhará mais sequer para o teu lado...”
Isso aqui no Brasil, é fácil sentir nas boates, com
exceção de São Paulo, onde alguns cocorocas ainda arriscam seu pezinho na
pista, de cara cheia e sem ligar ao enfarte. No Rio é bem menos comum, e no
geral, em mesa de velho não senta broto, pois, conforme reza a máxima
popular, quem gosta de velho é reumatismo. O que me parece, de certo modo,
cruel. Mas, o que se vai fazer? Assim é a mocidade- ínscia, cruel e gulosa
em seus apetites. Como aliás, muito bem diz também a sabedoria do povo:
homem velho e mulher nova, ou chifre ou cova.
Na Europa, felizmente para a classe, a cantiga soa
diferente. Aliás, nos Estados Unidos dá-se de certa forma o mesmo. É
verdade que no caso dos Estados Unidos a felicidade dos velhos é conseguida
um pouco à base da vigarista; mas na Europa não. Na Europa vêem-se meninas
lindas nas boates dançando cheek-to-cheek com verdadeiros macróbios,
e de olhinho fechado e tudo. Enquanto que nos Estados Unidos eu creio que seja
mais...cheek-to-cheek. Lembro-me que em Paris, no Club St. Florentin,
onde eu ia bastante, havia na pista um velhinho sempre com meninas diferentes.
O “matusa” enfrentava qualquer parada, do rock ao chá-chá-chá e dançava
o fino,, com todos os extravagantes passinhos que os gauleses enfeitam as danças
do Caribe, sem falar no nosso samba. Um dia, um rapazinho folgado veio
convidar a menina do velhinho para dançar e sabem o que ela disse:_isso mesmo
que vocÊs estão pensando e mais toda essa coisa. E enquanto isso, o
velhinho, de pé, o peito inchado, pronto para sair na física.
Eu achei a cena uma graça só,mas não sei se teria
sentido o mesmo aqui no Brasil, se ela tivesse passado no Sacha’s com algum
parente meu. Porque, no fundo, nós queremos os nossos velhinhos em casa, em
sua cadeira de balanço, lendo Michel Zevaco ou pensando na morte próxima,
como fazia meu avô. Velhinho saliente é muito bom, muito bom, mas de avô
dos outros. Nosso, não.
MORAES,
V. DE. A Arte de Ser Velho In: Para Viver um Grande Amor- Crônicas e
Poemas. São Paulo: Cia das Letras- projeto escola jovem p.65-66.
Mario
Quintana
O
despertador é um objeto abjeto.
Nele
mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós, para não parar.
E
todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho paralítico a [tocar a
campainha atroz.
Nós
É
que vamos empurrando, dia-a-dia, sua cadeira de rodas.
Nós,
os seus escravos.
Só
os poetas
os
amantes
os
bêbados
podem
fugir
por
instantes
ao
Velho...Mas que raiva impotente dá no Velho
quando
encontra crianças a brincar de roda
e
não há outro jeito senão desviar delas sua cadeira de rodas!
Porque
elas, simplesmente, o ignoram...
QUINTANA,
M. Antologia Poética. Rio de janeiro: Ediouro, 1997.5ed. p83
Mario Quintana
Antes,
todos os caminhos iam
Agora
todos os caminhos vêm
A
casa é acolhedora, os livros poucos.
Eu
mesmo preparo o chá para os fantasmas.
QUINTANA,
M. Antologia Poética. Rio de janeiro: Ediouro, 1997.5ed. p34
VERSOS
DE NATAL
Manuel
Bandeira
Espelho,
amigo verdadeiro,
Tu
refletes as minhas rugas,
Os
meus cabelos brancos,
Os
meus olhos míopes e cansados.
Espelho,
amigo verdadeiro,
Mestre
do realismo exato e minucioso,
Obrigado,
obrigado!
Mas
se fosses mágico,
Penetrarias
até o fundo desse homem triste,
Descobririas
o menino que sustenta esse homem,
O
menino não quer morrer,
Que
não morrerá senão comigo,
O
menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa
em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
1939
BANDEIRA,
M. Lira dos Cinqüent’anos In: Estrela da Vida Inteira. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira,1993 27
ed. P171
Vinícius
de Moraes
Passa,
tempo, tic-tac
Tic-tac,
passa, hora
Chega
logo, tic-tac
Tic-tac,
e vai-te embora
Passa,
tempo
Bem
depressa
Não
atrasa
Não
demora
Que
já estou
Muito
cansado
Já
perdi
Toda
a alegria
De
fazer
Meu
tic-tac
Dia
e noite
Tic-tac
Tic-tac...
MORAES,
V de. A Arca de Noé. São Paulo: Círculo do Livro. P41
Henriqueta Lisboa
O
tempo é um fio
Bastante
frágil.
Um
fio fino
Que
à toa escapa.
O
tempo é um fio.
Tecei!Tecei!
Rendas
de bilro
Com
gentileza.
Com
mais empenho
Franças
espessas.
Malhas
e redes
Com
mais astúcia.
O
tempo é um fio
Que
vale muito.
Franças
espessas
Carregam
frutos.
Malhas
e redes
Apanham
peixes.
O
tempo é um fio
Por
entre os dedos.
Escapa
o fio, perdeu-se o tempo.
Lá
vai o tempo
Como
um farrapo
Jogado
à toa!
Mas
ainda é tempo!
Soltai
os potros
aos
quatro ventos,
mandai
os servos
de
um pólo a outro,
vencei
escarpas,
dormi
nas moitas,
voltai
com o tempo
que
já se foi!!...
LISBOA, H , In: Para Gostar de Ler, v. 6- São Paulo:Ática. P.50
QUARENTA
ANOS
Mario
de Andrade
A
vida é para mim, está se vendo,
Uma
felicidade sem repouso;
Eu
nem sei mais si gozo, pois que o gozo
Só
pode ser medido em se sofrendo.
Bem
sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso,
persisto em me enganar...Eu ouso
Dizer
que a vida foi o bem precioso
que
eu adorei. Foi meu pecado...Horrendo.
Seria,
agora que a velhice avança,
Que
me sinto completo e além da sorte,
Me
agarrar a esta vida fermentida.
Vou
fazer do meu fim minha esperança,
Oh
sono,vem!...Que eu quero amar a morte
Com
o mesmo engano que amei a vida.
ANDRADE, M. Grão Cão de Outubro. In: Poesias Completas.Belo Horizonte: Villa Rica,1993 p.318
CARTA
Carlos Drummond de Andrade
Há
muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram
velhas todas as notícias.
Eu
mesmo envelheci: Olha em relevo,
Estes
sinais em mim não das carícias
(tão
leves) que fazias no meu rosto:
são
golpes, são espinhos;são lembranças
da
vida, a teu menino, que ao sol-posto
perde
a sabedoria das crianças.
A
falta que me faze não é tanto
À
hora de dormir quando dizias
“Deus
te abençoe”, e a noite abria em sonho.
É
quando, ao despertar, revejo a um canto
A
noite acumulada de meus dias,
E
sinto que estou vivo, e que não sonho.
ANDRADE, C.D. Literatura comentada.São Paulo: Abril Educação,1980 p. 99